O EmpoderAção debateu a educação antirracista a partir de dados concretos e da vivência de mulheres negras que atuam diretamente na formação de crianças e jovens. No episódio publicado nesta quinta-feira (15.01), as educadoras antirracistas Luana Vianna e Joana Gonçalves, a Joaninha pra Criança, trazem para o centro da conversa a escola como espaço de disputa simbólica, política e social.
Uma em cada seis crianças de até seis anos é vítima de racismo no Brasil, segundo o estudo Panorama da Primeira Infância: o impacto do racismo, realizado pelo Datafolha a pedido da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal. A pesquisa mostra que 54% dos episódios de discriminação acontecem em creches e pré-escolas, espaços que deveriam garantir proteção e acolhimento. Entre crianças com responsáveis negros, o índice chega a 19%, quase o dobro do registrado entre aquelas com responsáveis brancos (10%). A entrevista abordou as Leis 10.639/03 e 11.645/08, que tornam obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira, Africana e Indígena nas escolas.
Para Luanna Viana, formada em Letras pela UERJ, especialista em Educação pela PUC-Rio, mestre em Língua Portuguesa, professora da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro e da escola Parque, na rede privada, o enfrentamento ao racismo passa por decisões estruturais:
- As escolas não podem ter só preocupação com a causa antirracista. Elas precisam ter comprometimento, e isso passa, inclusive, pela admissão de professores negros. A educação antirracista não se resume a conteúdo, mas à formação de subjetividades capazes de transformar territórios – enfatiza a professora, que levou um grupo de alunos da escola privada ao Ilê Aiyê – primeiro bloco afro do Brasil, em Salvador, e enfatizou a atuação da Gerência de Relações Étnico -raciais na rede pública municipal do Rio.
Já Joana Gonçalves, mestranda pelo Cefet-RJ, poeta e integrante do grupo Ugima de Contadores de Histórias, explica como desenvolve o trabalho focado na transformação da subjetividade infantil por meio da literatura, da oralidade e da ancestralidade.
- A falta de letramento racial, inclusive entre professores negros, impacta diretamente a forma como esses profissionais constroem e transmitem orientações aos alunos. Ainda hoje, a presença de um professor negro na escola pode causar estranhamento e isso é reflexo de uma sociedade que não promove o letramento racial como deveria. Como contadora de histórias, nosso papel é oferecer insumos para que as crianças desenvolvam uma leitura crítica do mundo. Assim, ao assistirem um filme como Ainda Estou Aqui, por exemplo, vão se perguntar: ‘O que aconteceu com a empregada?’”, explica a contadora de histórias conhecida pelas crianças como Joaninha Pra Criança.
Para Gabriela Hilário, apresentadora do EmpoderAção, os dados ajudam a tirar o debate do campo simbólico:
-Quando falamos de educação antirracista, estamos falando de escolhas concretas que impactam a vida das crianças. Os números mostram que o problema começa cedo e precisa ser enfrentado com seriedade – afirma.
O episódio reforça que falar de antirracismo na educação é, sobretudo, discutir quem ensina, como se ensina e quais vidas são legitimadas dentro da escola.
O episódio completo está disponível no canal do EmpoderAção no YouTube, enquanto trechos da entrevista vão ao ar toda quarta-feira na Band FM de Campos (96,1).


