Não é a primeira vez que se tem notícias que águas-vivas podem perturbar o funcionamento de uma usina nuclear, mas é um fenômeno muito raro. Se você duvida, veja esta informação que está chegando da França, o país com o segundo maior número de usinas nucleares ativas no mundo. Uma nuvem de águas-vivas invadiu uma usina de Gravelines prejudicando a operação de quatro reatores nucleares, causando o desligamento de todos eles. Três dos seis reatores da usina foram desligados no domingo (1), após águas-vivas entrarem na rede de resfriamento. Na manhã de segunda-feira (2), um quarto reator também estava temporariamente fora de operação. De acordo com a empresa estatal de energia elétrica Électricité de France (EDF), os sistemas de segurança funcionaram conforme o previsto e não houve riscos para os funcionários, instalações ou meio ambiente.
O incidente ocorreu em uma usina que desempenha um papel central na matriz energética da França. A usina de Gravelines, sozinha, fornece quase 6% da eletricidade do país. A França, que expandiu seu parque nuclear após a crise do petróleo de 1973, opera atualmente 57 reatores e ocupa o segundo lugar em capacidade nuclear líquida, atrás apenas dos Estados Unidos, com mais capacidade de geração do que a China, apesar de ter cerca de um vigésimo da população chinesa. Para entender melhor esta estória, é bom saber que a usina de Gravelines capta água de resfriamento de um canal próximo que deságua no Mar do Norte. Reatores costeiros frequentemente dependem da água do mar devido à sua eficiência na remoção do calor residual.
De acordo com a EDF, águas-vivas se acumularam perto dos tambores de filtro da estação de bombeamento responsável por canalizar essa água de resfriamento. Embora os sistemas de filtragem sejam projetados para impedir que animais marinhos sejam sugados para infraestruturas sensíveis, eles nem sempre conseguem impedir bloqueios no ponto de entrada. A paralisação foi descrita como preventiva. A EDF afirmou que as águas-vivas “não tiveram impacto na segurança das instalações, na segurança do pessoal ou no meio ambiente”. O mesmo não se pode dizer dos próprios animais, que não sobreviveram ao encontro. Este não foi um evento isolado. De acordo com o The New York Times, águas-vivas têm causado problemas em instalações nucleares em diversos países ao longo dos anos, incluindo Japão, Escócia e Suécia.
Um detalhe biológico as torna particularmente problemáticas: quando morrem, as águas-vivas tendem a se liquefazer. Conforme relatado pela mesma fonte, esse processo permite que seus restos contornem certas barreiras de filtragem, criando complicações mais adiante nos sistemas de resfriamento. O que começa como um acúmulo em massa nos pontos de captação pode rapidamente se transformar em uma dor de cabeça técnica para os operadores das usinas. O episódio de Gravelines se encaixa em um padrão mais amplo de interferência da vida marinha na infraestrutura industrial, especialmente em instalações costeiras que dependem de resfriamento em mar aberto. O recente aumento nas perturbações relacionadas a águas-vivas está ligado a mudanças ambientais. Águas oceânicas mais quentes criam condições favoráveis para a reprodução de algumas espécies de águas-vivas. O escoamento agrícola também desempenha um papel. O crescimento explosivo do plâncton, impulsionado pelo escoamento, pode criar as chamadas “zonas mortas”, áreas com baixos níveis de oxigênio que prejudicam muitas espécies marinhas. As águas-vivas, por não possuírem cérebro, pulmões ou sangue, são menos afetadas por essas condições. Em ecossistemas tão alterados, características que parecem primitivas se tornam vantagens.
Fonte: Petronotícias


