Inverno, tempo para desacelerar e simplificar a vida

De uma educação mais lenta, que permita pensar e refletir, de consumo mais moderado e essencial, de cidades com mais lugares e espaços abertos para a convivência e o repouso, diminuindo a vertigem e o ritmo de loucura do urbano

Por Giovana Velasco

Uma dos grandes desafios da mudança de época, registrado no documento de Aparecida é a aceleração da história, dos ciclos da vida, tudo se torna corrido, uma ciranda de movimento sem fim, que já Mahatma Gandhi observava, quando manifestou: “Vida não se limita a ir cada vez mais rápido!”. Uma das propostas ou grandes orientações da Encíclica Magnífica Humanitas do Papa Leão XIV é a preservação e salvaguarda da humanidade.

O movimento cultural Devagar ou em inglês Slow se propõe uma marcha rumo não só a reduzir a velocidade e frenesí da nossa vida atual, mas torná-la harmoniosa, equilibrada e certamente mais humana. Já em outro tempo Santo Agostinho profetizava: “Corres ligeiro e sois muito rápido, mas corres fora dos trilhos”. Trata-se de retornar a uma jornada mais simples, sem pressa, com tempo de digerir, saborear e apreciar a beleza do que existe. De uma educação mais lenta, que permita pensar e refletir, de consumo mais moderado e essencial, de cidades com mais lugares e espaços abertos para a convivência e o repouso, diminuindo a vertigem e o ritmo de loucura do urbano.

A ansiedade e o pânico tem a ver em certa medida com os resultados de uma vida cansada, ofegante, com cada vez mais pressão e estresse. Os próprios relacionamentos afetivos e familiares são afetados pelo esvaziamento da comunicação interpessoal, presente e próxima. Domesticar a IA ou a nossa participação na internet passa também por disciplinar e moderar o seu uso, priorizando em nossa agenda os amigos, os contatos humanos, as conversas gratuitas, que fortalecem vínculos e nos humanizam. As férias, o tempo ou estação do inverno, ou outras paradas de nossa vida ativa, devem ser momentos de reconquistar o sentido do ócio, que não se opõe ao negócio ou ao tempo útil, mas que o liberta de ser uma alienação ou adoecimento da nossa vida psíquica e emocional.

Viver mais devagar, com simplicidade e sem pressa, nos torna mais vivos e sensíveis capazes de relacionarmo-nos com mais profundidade com Deus, os irmãos e todas as criaturas. Como afirma com sabedoria o monge Anselm Grun que não vivamos apenas no fim de semana, mas que nossa vida possa respirar liberdade, alegria e paixão. Deus seja louvado!

+Dom Roberto Francisco Ferreria Paz
Bispo Diocesano de Campos

Campos dos Goytacazes, 19 de Julho de 2026.

Compartilhar:

RELACIONADAS

NOTÍCIAS