Em uma noite de expectativas elevadas em São Januário, o Vasco e o Botafogo entraram em campo com objetivos distintos, mas com a mesma necessidade urgente de pontos no Brasileirão. O clássico, sempre carregado de história e paixão, desta vez também carregava o peso da luta contra o rebaixamento para o cruzmaltino e a busca pelo título para o Fogão.
O Botafogo, sob a batuta do ídolo Lúcio Flávio, começou o jogo tentando impor seu ritmo, com uma posse de bola dominante e uma presença constante no campo de ataque, porém, sem conseguir concluir. O Vasco, menos efetivo na construção de jogadas de ataque, se recolhia, absorvendo a pressão e aguardando o momento certo para atacar. O jogo estava bastante truncado.
Apesar das tentativas iniciais do Glorioso, a última linha de defesa do Vasco, liderada por um inspirado Maicon, que ganhou todas de Tiquinho Soares e Gary Medel, quase impecável nos desarmes e sempre muito seguro, ergueu um muro que os alvinegros não conseguiam transpor.
A partida carecia de criatividade, com as duas equipes apostando em “chuveirinhos” e jogadas de bola parada. Mesmo com certo volume de jogo, a incapacidade do Fogão de construir lances mais perigosos e converter as oportunidades em gols acabou resultando em um contra-ataque bem-sucedido do Vasco.
Lúcio Flávio assistiu a uma sucessão de falhas ofensivas da equipe alvinegra, que culminaram com Paulo Henrique, aos 28 minutos, fazendo o primeiro gol do jogo, após uma excelente jogada pelo lado direito. Depois de receber um passe de Maicon, na intermediária, o lateral vascaíno partiu em direção à meta, driblando dois e acertando um chutaço no canto direito de Lucas Perri, que não teve nenhuma culpa no lance. Rede estufada, festa em São Januário. Um a zero Vascão!
O bonito gol deu ao Vasco um impulso, que quase resultou em outro antes de se recolherem para o intervalo. Mais uma vez disparando em contra-ataque, o meia Paulinho abriu para Paulo Henrique na ponta, que encontrou Pec, livre na pequena área, para escorar para dentro e sacudir a rede da meta botafoguense. Mas o assistente apontou impedimento do lateral na jogada. Paulinho, no último lance de perigo do primeiro tempo, quase ampliou a vantagem com uma cabeçada que passou raspando o gol. Apesar dos esforços, a primeira etapa acabou um a zero para os donos da casa.
Avançando para a segunda metade, o Vasco manteve o controle, frustrando as tentativas de recuperação do Botafogo, que se mostrou tenso e impreciso em suas jogadas ofensivas. Tiquinho, peça-chave do Botafogo, foi exemplo essa tensão, recebendo um cartão amarelo, o seu terceiro dm sequência, que o deixou de fora do próximo confronto devido à suspensão.
O Vasco, com o passar dos minutos, começou a mostrar sinais de exaustão, mas ainda assim, ensaiou contra-ataques perigosos. O Botafogo ainda mais pressionado, lançou todos os seus jogadores ao setor ofensivo, mas a noite não favorecia Tiquinho nem Marçal, que se viam ofuscados pela defesa vascaína. As substituições de Lúcio Flávio, incluindo Segovinha, Diego Costa e Carlos Alberto, não conseguiram mudar o panorama do jogo.
Ao final, o Vasco soube administrar o resultado, segurando a vitória por 1 a 0, que o levou a 37 pontos, escapando da zona de rebaixamento por critérios de desempate e colocando o Cruzeiro na zona da degola. O Botafogo, apesar da derrota e da pressão que agora aumenta, ainda mantém a liderança, embora compartilhada com o Palmeiras, ambos com 59 pontos, mas com um jogo a menos para o alvinegro.
O Vasco agora terá um respiro até domingo, quando enfrentará o América-MG em casa, enquanto o Botafogo, antes disso, terá que se recompor para o duelo contra o Grêmio, também em São Januário, mas desta vez como mandante, na quinta-feira.
A crônica desta partida se escreve com a tensão do que está em jogo na competição. O Vasco, depois de uma sucessão de erros no planejamento de seu futebol, fez contratações precisas e tem um returno digno de briga por vaga na Libertadores, não contra o descenso.
O Botafogo que, em determinado momento do campeonato, chegou a abrir uma vantagem para o segundo colocado maior do que a quantidade de pontos do Vasco, agora não possui mais margem para errar. Um segundo turno para esquecer, que colocaria o Fogão na guerra para não cair, não fossem os pontos obtidos na primeira perna do campeonato.
Os torcedores cruzmaltinos, que fizeram a festa em São Januário, respiram aliviados, ainda que momentaneamente e se preparam para uma série de confrontos diretos na luta contra a degola. Já os alvinegros, que outrora diziam ver os outros concorrentes pelo retrovisor, agora já os veem emparelhados lado a lado.
Será que os deuses do esporte da bola redonda estão finalmente permitindo uma reta final tranquila aos vascaínos? Será que eles se voltaram contra o Glorioso ou ainda dá para o Fogão em meio a crise que tomou conta do elenco? As últimas rodadas do Brasileirão 2023 reservam emoções como há muito não era visto.
Texto: Jorge Guilherme


