Coaf aponta R$ 57 milhões em movimentações atípicas na Lagoinha ligada ao cunhado de Vorcaro

Relatório tornado público no caso Banco Master mostra que Fabiano Zettel transferiu R$ 19,2 milhões para a igreja; documentos também apontam movimentações envolvendo familiares de Daniel Vorcaro

Por Giovanna Toledo

Novos documentos tornados públicos no âmbito das investigações sobre o Banco Master colocaram a Igreja Batista da Lagoinha Belvedere, em Belo Horizonte, novamente no centro do caso. Segundo relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), a conta da igreja movimentou R$ 57,1 milhões em operações consideradas atípicas entre dezembro de 2024 e dezembro de 2025.

O relatório foi encaminhado à Polícia Federal em fevereiro de 2026 e passou a ser conhecido após a retirada do sigilo de documentos da investigação. O valor movimentado é muito superior ao faturamento anual presumido da instituição, estimado em R$ 950 mil.

Entre as operações identificadas pelo Coaf estão 26 transferências feitas por Fabiano Zettel, que somaram R$ 19,2 milhões. Zettel é cunhado de Daniel Vorcaro e, à época, administrava a unidade da Lagoinha no bairro Belvedere. Investigadores também apontam Zettel como um dos operadores financeiros ligados ao ex-banqueiro.

O documento aponta ainda que cerca de R$ 4,9 milhões saíram da conta da igreja para construtoras e incorporadoras. Também foram identificados quatro depósitos feitos por Henrique Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro, que totalizaram R$ 120 mil. Outro nome citado é Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, apontado nas investigações como integrante do grupo ligado ao ex-banqueiro, que teria realizado 11 depósitos, somando R$ 22 mil.

De acordo com o Coaf, as operações, pela frequência, pelos valores e pela forma como foram realizadas, poderiam representar uma tentativa de dificultar a identificação da origem, do destino ou dos responsáveis pelos recursos. O relatório, porém, aponta movimentações suspeitas e não representa, por si só, uma conclusão de que a igreja tenha cometido crime.

A Lagoinha Global, presidida pelo pastor André Valadão, afirmou que as igrejas locais possuem administração própria, com contas, receitas, despesas e responsabilidades administrativas independentes. Segundo Valadão, os recursos captados por Zettel teriam sido destinados a reformas e melhorias na unidade do Belvedere. A instituição declarou que não tinha conhecimento da dimensão das movimentações reveladas pelo Coaf.

Zettel foi afastado das atividades pastorais depois que seu nome apareceu nas investigações do caso Master. A unidade da Lagoinha no Belvedere foi fechada em março deste ano.

A divulgação dos dados ocorre em meio à retirada do sigilo de parte dos autos do caso Banco Master pelo Supremo Tribunal Federal. Além das movimentações relacionadas à Lagoinha, os documentos passaram a expor informações sobre relações financeiras de Vorcaro, o Banco de Brasília (BRB), servidores do Banco Central e contatos do ex-banqueiro com autoridades.

A Procuradoria-Geral da República também pediu esclarecimentos sobre o acesso da Polícia Federal a um relatório completo do Coaf que reúne informações sobre pagamentos feitos por empresas ligadas a Vorcaro e Zettel. A PF considera os dados relevantes para rastrear a origem e o destino dos recursos e identificar possíveis beneficiários.

As novas informações fazem parte de uma investigação ainda em andamento. Até o momento, os documentos divulgados apontam movimentações financeiras consideradas atípicas e relações entre pessoas investigadas, mas eventuais responsabilidades criminais ainda dependem da conclusão das apurações.

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